12 de Novembro de 2005
Apeteceu – me reflectir sobre alguns fragmentos desta minha grande caminhada e, realmente, não tem sido fácil ultrapassar certos momentos menos bons.
Tudo começou quando os meus avós descobriram uma clínica em Cuba e me propuseram uma viagem até lá, com vista a uma melhoria da minha incapacidade motora. Aqui havia os melhores médicos do país, talvez pelo facto de apostarem muito na força humana e não em qualquer tipo de tratamento á base de medicação.
Durante uma semana estive em Havana a fazer todos os exames que vocês possam imaginar. Tudo até ao mais ínfimo pormenor!
No fim tive noticias relativamente boas: os médicos disseram que eu tinha muitas potencialidades e que poderia vir a ser autónoma no futuro.
No entanto, fiquei um pouco entristecida porque, para alcançar o meu maior sonho teria de ser submetida a algumas cirurgias.
Como eu sou muito positiva e luto por alcançar os meus objectivos de vida, não me deixei ir abaixo porque sei que tenho capacidades para ir mais longe e, também sei que tenho a minha família e amigos que me apoiam e ajudam a ultrapassar esta minha grande meta.
Depois de ter discutido e de ouvir várias opiniões sobre a decisão tomada pela equipa médica de Cuba, tivemos que optar por fazer duas cirurgias aconselhadas pelos médicos de Cuba – pernas e pés. Foi difícil aceitar mas pensei que iria contribuir sempre para a minha melhoria e bem – estar.
Esta cirurgia foi realizada em Lisboa, no Hospital Egas Moniz pelo Dr. Estanqueiro, mais conhecido por “Estancas” para os amigos.
Não tenho palavras para descrever o que senti quando o meu pai me avisou que eu ia ser operada….isto tudo 3 dias antes!!!! Enfim, acho que nunca chorei tanto como naqueles dias.
Fui então invadida por uma sensação de incerteza quanto a tudo aquilo o que me poderia acontecer a partir desse mesmo dia…nem queria acreditar que tinha chegado o dia, ou melhor dizendo chegaria muito em breve. Não, não poderia ser! E as aulas; E os testes: Iria reprovar o ano! Estava tudo perdido a partir de agora! A cabeça não parava de pensar e de fazer interrogações sobre tudo e mais alguma coisa! Só chorava, chorava e chorava! Nada nem ninguém me conseguia acalmar nem distrair…um caos completo! Estava tudo destruído!
Comecei desde logo a tentar avisar as pessoas da noticia, e quando estas respondiam eu não conseguia conter as lágrimas, pois estas já saiam sem eu querer.
No Sábado foi o dia das despedidas. Combinei com a Raquel, a mãe dela – a Júlia e com o Pedro ir sair ao Norte – Shopping para almoçar.
Depois do almoço fui para Leça ter com a Francisca Penha para apanhar um pouco de ar e tomar um cafezinho com ela e com o Pinhal que também se queria despedir.
Á noite vim para minha casa ter com o meu pai, pois ia jantar a casa da Tia Anita. Foi um jantar muito animado apesar de eu estar muito em baixo.
No Domingo ainda almocei em casa com os meus pais e irmã, e ainda veio cá a Rosário e a Anita para me desejar muita sorte e muita calminha, que tudo correria pelo melhor.
E pronto, depois de terrmos ido deixar a Teresa a casa da Tia Anita e de me ter despedido dela, lá partimos para Lisboa.
Esta viagem foi calma, apesar de eu estar muito nervosa e muito chorosa.
Depois de bastantes horas dentro do carro, lá chegamos a Lisboa e fomos para o hotel Vila Galé, onde jantamos e passamos a noite. Escusado será dizer que eu não comi praticamente nada porque estava muito nervosa e nada me passava na garganta, o costume.
Como na segunda-feira de manhã tínhamos de nos levantar cedo fomos para o quarto para ver se dormíamos umas horas pois sabíamos que nos esperavam dias complicados.
Na segunda – feira, dia anterior á cirurgia, fomos ao hospital para eu fazer alguns exames, falar com a anestesista, ver as instalações onde iria ficar e falar com o Dr. Estanqueiro – o cirurgião. Assim pude tirar as minhas dúvidas que á tanto me andavam a atormentar o espírito e desabafar um bocado com a anestesista, pondo – lhe os meus grandes medos e ânsias. Enfim, estava mesmo com muito, mas muito medo de que alguma coisa de errado pudesse acontecer.
Depois de ter conversado com a anestesista e de me ter pesado fiquei um pouco mais aliviada e fui tomar um café ao bar do hospital, pois o “Estancas” ainda estava muito atrasado nas consultas.
De seguida, fomos ver o quarto onde eu iria ficar instalada, que a pedido especial tinha apenas quatro camas e era na Ortopedia. Isto tudo para que a minha mãe pudesse ficar lá comigo durante a noite. Passei um tempo no quarto, juntamente com o meu companheiro, o André, sendo sujeita a algumas perguntas por parte de um enfermeiro, que ia passando nos quartos para dar as boas vindas aos doentes que iam ser internados naquele dia. Este era mulato e pouco simpático; digamos que pensava ser superior a tudo e todos, e nada nem ninguém lhe faziam frente.
Após ter finalizado a entrevista e de ter conhecido o meu acompanhante, apareceu uma enfermeira muito simpática que me perguntou a minha idade, pondo – se a refilar que a minha mãe não podia ficar lá a dormir nem a almoçar comigo. No entanto depois de muitas exigências minhas lá chegamos a um consenso: a minha mãe tinha direito a tudo isso porque eu estava na Ortopedia! Era lógico, mas pronto….que é que se há de fazer? Estas discussões são normais quando estamos num hospital público.
Depois de eu ter almoçado no hospital com o meu pai pois só podia almoçar um acompanhante, fomos falar com o Dr. Estanqueiro para combinar as horas a que eu me deveria encontrar no Egas Moniz na terça-feira em jejum – sem nada no estômago, nem um simples copo de agua.
Seguimos para o hotel e depois de eu ter ido ao quarto lavar os dentes, fui com o meu pai dar uma volta pelas Docas para eu relaxar e desanuviar um pouco, o que não foi fácil. Por volta das 4h:30m fomos ao bar do hotel, onde o meu pai me ofereceu um cocktail de frutas e uma tosta mista, que comemos a meias.
Quando estávamos a lanchar, toca o telemóvel do meu pai e era a Isabelinha, uma amiga minha a dizer que me iria visitar ao hospital! Fiquei logo feliz por saber da notícia! Ela é um amor, é uma pessoa insubstituível para mim! Fiquei com outra cara, esta novidade veio dar – me mais força e alegria de viver, e vontade de ultrapassar tudo com muita garra.
Como só podia comer até ás 10h:00, fui jantar por volta das 8h:00, visto o Dr. Estanqueiro ter pedido para eu me deitar cedo para que eu fosse descansada para a cirurgia. Jantei com os meus pais e com os meus avós. Não comi quase nada pois tremia por todos os lados. A seguir ao jantar fomos tomar um café e depois fui para a cama dormitar um bocado, pois sabia que não ia dormir nada… Apenas ia esperar que o despertador tocasse ás 6h00!
Na terça-feira de manhã, dia 11 de Outubro ás 7h00 dei entrada no Egas Moniz umas horas antes de ir para o bloco operatório. Fui directamente para o meu quarto, tirei tudo o que tinha vestido e pus uma bata do hospital. Fiquei durante 30m deitada na cama e depois seguimos, eu e o André juntamente com os nossos pais para o bloco.
O caminho para o bloco era tenebroso, sem condições nenhumas! Estava todo em obras e, por vezes era muito complicado passar com as macas. As condições de higiene deste hospital eram horríveis, estava tudo muito sujo e poluído. Enfim, eu só de ver aquele aparato todo fiquei muito mais nervosa do que já estava! Não tenho palavras para descrever as minhas sensações, estava com os nervos á flor da pele e o meu sentimento de revolta aumentava a cada minuto que passava!
Quando cheguei ao piso do bloco, ainda tivemos que esperar que o Dr. Estanqueiro chegasse durante para ai 1h, o que, decididamente, não cabe na cabeça de ninguém, não acham? Então não era muito melhor que eu esperasse no quarto? Ia com mais calma e não ficava tão nervosa não era? Claro que sim, no entanto, lá ninguém pensa no bem-estar dos doentes! Ninguém quer saber do conforto das pessoas que estão a passar por fases mais difíceis, ou que estão a sofrer! Inacreditável! Uma revolta imensa me invadia naqueles momentos…tudo me parecia tão estúpido e deprimente! Nada tinha um significado!
Depois de ter esperado este tempo todo, tinha chegado a hora da verdade. Estava na hora de ir para o local onde eu ia ser anestesiada.
Como eu estava numa tensão muito grande veio uma enfermeira tentar acalmar – me, dizendo umas palavras carinhosas e bonitas. No fundo, foi mais uma pessoa que tentou dar – me força e animo para que eu conseguisse perder o medo e ficasse menos tensa, desejando – me o maior sucesso para a minha cirurgia.
Depois de eu estar mais sossegada e mais relaxada, segui com a minha mãe para a sala onde fui anestesiada. Aqui estavam alguns médicos e enfermeiros que estiveram a conversar comigo, entre eles estava o Dr. Estanqueiro – o da “ faca”. Estavam todos muito animados porque, para eles, aquilo era “o pão-nosso de cada dia”, era a coisa mais simples do mundo.
Passado para ai 15m de eu estar na conversa, a enfermeira deu – me o soro, o chamado “bife com batatas fritas, isto depois de me ter dado uma picadela! O que não é simples visto não ser fácil encontrar uma veia onde injectar a agulha….mas tudo se resolve! Estive uns minutos com o soro, conversando e ouvindo os comentários sempre alegres e bem-dispostos dos médicos que se encontravam perto de mim. Estavam tão alegres que me conseguiram pôr a sorrir e mais á vontade! Aquela sala era uma festa!
Estávamos nesta conversa pegada, quando chega o anestesista e me vê muito triste e desconsolada. E a ter pensamentos muito negativos. Isso é péssimo, tem de se ter um espírito aberto e pensar que tudo vai correr bem e que nada é para nosso mal! Estive – lhe a falar dos meus grandes receios da anestesia e a pedir para ele ter em consideração o facto de eu ter uma pessoa na família que teve problemas durante uma operação derivados da anestesia ter sido dada a mais, e, por isso, eu tinha sempre esse facto na minha mente. O anestesista esteve a tentar animar – me e a explicar me que os médicos tinham relatórios, onde podiam ter acesso aos meus problemas de sangue, e a todas as doenças que eu possa ter tido até aquele momento. Também lá estavam descriminados o meu peso e altura, e, era só de acordo com esses dados que eles podiam calcular a quantidade de anestesia que me iam dar.
Mesmo assim continuei muito nervosa, sem saber o que pensar…Estava eu nestes pensamentos e na conversa com o anestesista, quando vejo passar por cima de mim um grande tubo que, a meu entender continha soro. No entanto, por via de dúvidas perguntei para que é que servia….quando o anestesista me ia a responder, já eu estava a dormir. A cirurgia tinha iniciado!
Passado mais ao menos 90m, começo a acordar muito devagarinho e a primeira pessoa que eu vejo ao meu lado no recobro, é a minha mãe e depois outro enfermeiro que esteve a acompanhar a cirúrgia. Coitado do homem, ele bem falava comigo mas eu estava tão mal disposta da anestesia, que nem lhe conseguia responder a nada! Só emitia uns sons e pouco mais conseguia fazer, pois estava muito rouca e com um sabor horrível na boca….enfim estava como nunca pensei estar! Estava cheia de sono mas ninguém me deixava dormir! Umas sensações tão insuportáveis que vocês nem queiram saber! Só para mim mesmo!
Só depois de ter estado um bocadinho sossegada e de ter dormitado um pouco, então ai sim comecei a perguntar como é que tinha corrido tudo, e a ver as minhas pulsações e o batimento cardíaco e estava tudo bem, o que era bom sinal.
Comecei logo a “mandar vir” com os médicos e com a minha mãe que queria sair daquela sala o mais depressa possível e voltar para o quarto! Os meus familiares e amigos como sabiam o horário da operação, começaram logo a ligar pois queriam saber como é que eu me sentia, isto tudo quando eu ainda estava no recobro, após 45m de ter saído do bloco! O telefone fazia interferência com as máquinas, o que não podia ser! Mas isso era a única coisa que me animava, o facto de saber que tinha pessoas que se preocupavam comigo naquele momento difícil.
Após ter estado 2h no recobro e depois de muito rec!amar, lá me levaram para o quarto, onde o André já se encontrava. Ele estava muito bem acordado, muito alegre e bem disposto! Não se calava um minuto! Enfim, eu estava a morrer de sono e a única coisa que desejava naquele momento, era adormecer por umas longas horas e que ninguém me incomodasse nem falasse comigo! Estava mesmo mal!
Acordei as 4h da tarde com o telemóvel a tocar, e com a Isabelinha a chegar!
Apesar de estar com imensas dores e não me puder mexer, recebi a Isabelinha com muito boa cara e um sorriso enorme nos lábios! Para mim, ter visitas logo a seguir á cirurgia era uma coisa excelente, ainda que eu não tivesse recuperado o efeito da anestesia! Lá estive a mostrar o gesso e como eu estava completamente empenada….não tinha descrição o meu estado!
Mas eu tentava sempre a ver o lado bom das coisas e levar sempre tudo para a brincadeira, pensando que durante algum tempo ia ter muitos mimos. Ia ser tratada como uma rainha!
Quando chegou a hora do jantar eu, apesar de não ter grande fome ainda tentei comer um bocadinho da refeição e a Isabelinha também comeu a sopa, dividindo comigo a comida.
Enfim, como eu só queria dormir, adormeci logo as 8h30m da noite mas vieram dar - me o remédio para as dores porque o Dr. Estanqueiro tinha receitado para aquela hora e, juntamente bebi um chá e uns biscoitos. A partir desse momento adormeci logo, no entanto acordei muitas vezes com muitas dores e para mudar de posição.
No dia seguinte, levantei – muito cedo pois não conseguia dormir mais! Estava a morrer de dores! Toquei á campainha, pois precisava urgentemente de tomar qualquer coisa senão ia “daquela para melhor”! As dores eram insuportáveis e eu não tinha nenhuma posição na qual me sentisse bem! Toquei montes de vezes á campainha, ninguém foi aquele quarto! Incrível, não é? Quer dizer se eu estivesse a morrer e a minha mãe não se encontrasse no quarto comigo, não sei como é que eu me conseguia aguentar!
Passado para ai uma hora de estar a sofrer de dores, parecia que me estavam a matar, lá chegou uma enfermeira para me dar o remédio! Finalmente! Ao fim de tanto tempo de espera! Enfim, isto nem contado!
E agora imaginem qual foi a causa de tanta demora!
O problema foi o facto de os médicos pensarem que, quem estava a chamar era uma rapariga que estava no quarto ao lado e que estava internada á um mês, tinha sido operada para ai cinco ou seis vezes no espaço de três meses e ainda estava á espera de mais uma operação plástica! A miúda tinha um cancro e, portanto, sofria imenso com as dores e com todas as cirurgias, exames e tudo o que tinha que fazer, com todas as fases pelas quais tinha passado e ainda ia passar! Ela estava acompanhada com a sua mãe, que tentava fazer tudo o melhor possível, mas coitada era difícil aguentar a miúda sempre aos gritos de dores e não conseguir atenuar o sofrimento da criança com apenas 13 anos! Ou seja, além de ter havido negligência médica, o que, é inadmissível a atitude tomada pelos médicos foi de um desprezo total, enfim sem comentários!