Depois de muito reflectir resolvi ganhar coragem para publicar aqui a minha entrevista. Uma partilha intima e profunda, cá vai:
P- Sente-se uma vencida ou uma vencedora?
R- vencedora. Vencedora, porque ao longo da minha vida vivi obstáculos e etapas, momentos difíceis, mas tento sair deles sempre a sorrir e sempre de bem com a vida. Todo o esforço que eu fiz ate hoje, sinto que hoje, aos 21 anos, fui muito recompensada, principalmente com a ajuda da família, amigos, fisioterapeutas, este nomeadamente. E que apesar desses momentos difíceis eu sinto-me bem com a vida, não tenho nenhum constrangimento, porque estou estável. Estou bem.
P- Qual a sua reacção perante um vencido, uma vez que deseja ser psicóloga, psicoterapeuta?
R- Exactamente mostrar-lhe que há outra maneira de ser feliz, que não o andar. Há outras maneiras de ser independente, há outras maneiras de ter vida própria, para além de…
Tenho vontade de a fazer sorrir e ver outros lados da vida.
P- Quando teve a noção que tinha a doença, qual foi a mudança, o impacto na sua vida?
A minha doença já é desde nascença, por falta de oxigénio durante o parto. E é evidente que quando uma pessoa é pequena não se apercebe, porque os pais sempre me mostraram que não, principalmente os meus, que não tenho nada, e comparado com outras pessoas não tenho nada mesmo. Mas é paralisia cerebral e eu realmente sempre soube que não ia andar. Eu lembro-me de uma vez que era pequena, de ter umas fotografias comigo em pé e virar-me hoje em dia, para os meus pais, e dizer “ah eu já andei”. Ou seja, ás vezes tenho sonhos ou fases da vida que penso que isso já aconteceu, quando não aconteceu. Eu sei perfeitamente que não aconteceu. Sei perfeitamente como foi o meu parto, sei que é uma paralisia cerebral de nascença. Sei tudo, mas as vezes passa-me pela cabeça que não e que poderá ter acontecido.
Eu nunca vivi o outro lado da vida, não sei o que é o outro lado da vida. Por isso… andar é um sonho, é um sonho pelo qual lutarei toda a minha vida, aliás é o meu grande objectivo de vida, mas também não é aquela frustração total, porque eu nunca experimentei. Eu experimentei um outro lado da vida, sem andar como se pode ser feliz.
P- Quais foram as principais barreiras que encontrou na sua vida?
R- É assim, este pais ao nível de barreiras arquitectónicas é uma porcaria. Não há mesmo condições para poder sair à rua sozinha. Comprei agora uma cadeira de rodas eléctrica a achar que já sou a pessoa mais independente do mundo, e sou (!), eu realmente vou aos sítios onde quero ir, mas tem que haver algum problemazinho para eu não poder chegar ao sítio.
Encontramos [degraus] em centros de fisioterapia, em consultórios de psicologia, o que eu acho ridículo. O meu consultório de psicologia tinha 3 degraus, onde é que já se viu 3 degraus para uma cadeira de rodas. Num consultório medico, onde devia ter o máximo de condições.
Barreiras arquitectónicas, se for a baixa do porto é horrível, o piso é horrível. A casa da música não sei se tem acessos. Eu já lá fui, mas também nunca acedi à casa da música toda. Como a casa da música, imensos museus não têm. Não é só Portugal, também são outros sítios.
P- A nível social sentiu obstáculos?
A nível social, sempre tive uma integração o máximo normal possível, sempre andei em escolas normalíssimas, nomeadamente a Garcia, que é uma escola pública. Nunca encontrei nenhum tipo de má receptividade por parte de amigos. Sempre tive aulas normalíssimas, nunca tive, posso dizer que quase nunca tive ensino especial. Andei em escolas sempre publicas, só agora é que ‘estou na faculdade privada. Mas não é por nada, é porque tem sucesso e eu resolvi investir numa coisa que gosto.
A nível de amizades, penso que é isso que querem saber. Sou a pessoa, neste momento, mais realizada a nível de relações. Tanto amistosas, como de tudo. Já tive más fases, na escola primária era difícil, eram complicadas, mas agora fui crescendo e as mentalidades com que me cruzo também são mais desenvolvidas, mais maduras. Por isso as pessoas percebem os sentimentos dos outros, o nosso outro lado da vida e por isso, é mais fácil para mim construir relações. O meu grupo de amigos é espectacular, gosto muito deles mesmo e sinto que se eu precisar posso contar com eles sempre.
A nível familiar… [silencio] O meu pai sempre foi super e a minha mãe também sempre foi super afectiva, super… tentou sempre normalizar a situação. Mas sim, é verdade, ao início existia ali um esconderijo por parte de algumas pessoas, mas sei lá, á medida que vamos crescendo vamos tentando que isso não seja permitido. Não posso permitir tal coisa. Sempre segui as minhas escolhas como quis, estou no curso que quero, fui para onde quis. Faço tudo o que quero, entre aspas…não há nenhum impedimento para eu seguir os meus sonhos.
P- Qual a sua relação consigo própria?
R- Neste momento? Pergunta complicada…
É assim tive, ao longo da minha vida, nomeadamente aos 17 anos, uma má fase, mas sinto que estou melhor, entretanto fui seguida por um médico. Um bom psicólogo que está mesmo especializado em pessoas com problemas, ainda hoje estou a ser seguida por ele… só por motivos de descarga de consciência. Ter ali alguém para que a qualquer momento me possa apoiar. De momento não tenho assim nenhum conflito existencial.
Em pequena, e ainda agora, já tive muitos sonhos a meio da noite de acordar e achar que estava a andar… mas isso já foi à um ano atrás. E às vezes acontece, acordo, acendo a luz e penso “ai não, afinal foi só um sonho. Vou mas é dormir”. Isso mexe comigo, como é claro. Acordar e sentir que não é nada verdade, que estou a alucinar. Claro que estou a alucinar, porque isso não acontece de um dia para o outro. Não é que não vá acontecer… talvez um dia aconteça, mas não é na cama que vai acontecer. Também já chorei que chegue. Já os tive, neste momento não sinto conflitos. Conflitos de “Quem sou eu” , “Porquê eu?”.Todos os têm!
P- Qual a sua fonte motivação para a luta?
R- [suspiro] Os amigos!
O que me faz continuar aqui? Primeiro, tenho objectivos de vida e tenho de lutar por eles… se tenho de lutar por eles tenho de enfrentar as pessoas de bem com a vida e sentir que sim, que sou capaz.
Eu não sabia se era capaz de dar esta entrevista, foi difícil para mim aceitar, mas sentir que além de ser bom para mim e para o meu curso era bom para eu crescer e me habituar…não vai ser a ultima espero eu.
Sentir que cada vitória e cada passo, porque eu já dei um passo sozinha, é festejado como se fosse um acto único e heróico… tê-los todos lá para mim é maravilhoso…
P- Qual o seu lema de vida?
R- Viver o momento como se fosse único.
Eu vivo esses momentos de vitória como senão fossem existir mais, porque eu não sei quando eles vão existir.
P- Quais as suas previsões para o futuro?
Tirar curso de psicologia e andar…
P- Acha que para existir menos discriminação a sociedade deve estar mais informada ou as pessoas diferentes devem ter uma posição mais activa?
Há pessoas que andam prai a reclamar que não há condições. Realmente há muitas barreiras arquitectónicas… mas eles assumem isso e não saem de casa, não reclamam…
Se os deficientes não vão para um sítio onde tem escadas, como podem reclamar?
Por exemplo se num restaurante existem escadas e não vai lá ninguém com necessidades especiais, o dono não vai colocar uma rampa… é dinheiro que gastam….
P- Como aceita um não relacionado com a sua condição?
R- Não aceito, é inconcebível… Não é não consigo, é ainda não consigo, porque o futuro ninguém sabe…. Também depende do que a gente dá por isso, e do que me pedirem. Sei muito bem que não vou conseguir vencer a maratona, a não ser a maratona de cadeira de rodas…
Mas o resto, é o que eu digo nunca fui impedida de fazer nada.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Um simples jantar
Pois é, dei a minha primeira entrevista no mês passado. Uma entrevista a pedido de umas alunas do primeiro ano de Psicologia que estavam a fazer um trabalho sobre doenças neurológicas e queriam falar com uma pessoa que fosse um exemplo de sucesso na vida.
Ora, eu soube disso através do meu fisioterapeuta que mal as raparigas apareceram no ginásio dele, se lembrou de mim. No entanto, não me disse nada. Pura e simplesmente combinou com as raparigas um dia e elas passaram por lá para me conhecer.
Demorei um pouco a aceitar pois tive um certo medo das perguntas a que iria estar sujeita, mas sim! Aceitei e na semana seguinte lá estava eu nervosissima mas pronta e receptiva a quaisquer questões.
Digo - vos que as perguntas não eram nada simples. Tive que recordar muitas experiências anteriormente passadas, dai ter sido bastante duro. Mas mais uma vez me superei a mim mesma e ás minhas expectativas em relação áquela "prova".
Mais uma etapa da minha vida vencida com todo o sucesso e empenho, pois expor - me á sociedade sempre foi algo que eu queria fazer mas não me sentia preparada psicologicamente.
O balanço foi extramamente positivo. É que depois consegui juntar meia dúzia de amigos e falar abertamente sobre mim. Vi um empenho muito grande da parte deles ao terem vindo cá partilhar este momento de reflexão Senti que sim, que realmente tenho um grupo de amigos fantásticos com os quais posso sempre contar. Esta reunião foi a prova disso mesmo!
Ora, eu soube disso através do meu fisioterapeuta que mal as raparigas apareceram no ginásio dele, se lembrou de mim. No entanto, não me disse nada. Pura e simplesmente combinou com as raparigas um dia e elas passaram por lá para me conhecer.
Demorei um pouco a aceitar pois tive um certo medo das perguntas a que iria estar sujeita, mas sim! Aceitei e na semana seguinte lá estava eu nervosissima mas pronta e receptiva a quaisquer questões.
Digo - vos que as perguntas não eram nada simples. Tive que recordar muitas experiências anteriormente passadas, dai ter sido bastante duro. Mas mais uma vez me superei a mim mesma e ás minhas expectativas em relação áquela "prova".
Mais uma etapa da minha vida vencida com todo o sucesso e empenho, pois expor - me á sociedade sempre foi algo que eu queria fazer mas não me sentia preparada psicologicamente.
O balanço foi extramamente positivo. É que depois consegui juntar meia dúzia de amigos e falar abertamente sobre mim. Vi um empenho muito grande da parte deles ao terem vindo cá partilhar este momento de reflexão Senti que sim, que realmente tenho um grupo de amigos fantásticos com os quais posso sempre contar. Esta reunião foi a prova disso mesmo!
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